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sexta-feira, maio 30, 2003

A puta da vida ou ensaio sobre a relatividade

Eram os últimos dias de Maio. O sol nascia anunciando um novo amanhã. Não se poderia assegurar que tal amanhã seria cantante, pois nos dias que corriam a unica musica que passava era a do chocalhar metálico do vil neo liberalismo. Dois pequenos pardais davam asas às suas e vagueavam descontraidamente por uma reserva de caça criada propriamente para o efeito, e em que cada empresário caçador, pagava à entrada uma choruda quantia, tal qual entrada na discoteca e ainda para mais sem direito a consumo incluido. Por cada vida abatida seria pago um montante estabelecido à partida. Pobres pardais, soubessem eles estar sob o jugo da propriedade privada, aliás, soubessem eles de que se trata a propriedade privada e todos os direitos inerentes a ela, e jamais teriam percorrido tão ardiloso caminho. Inocentes pardais esses a quem um dia garantiram um céu livre e de graça . Nunca ninguém tivera a frieza necessária para lhes explicar que desde A.Smith a propriedade privada era a lei e que não havia almoços grátis para ninguém. Em gloriosos tempos numa planície distante resistira ainda um grupo de irredutíves defensores do colectivismo, da igualdade. Um lugar aprazível onde quando havia fome era para todos. O uníco problema de tal paraíso terreno foi a continuidade da fome sucessivamente, ano após ano, fruto obviamente de embargos constantes e maldosos dos grandes capitalistas. Os pardais estavam pois perante a grande armadilha do império, a ignorância. E como quem não sabe, é como quem não vê, eis que os pardais subitamente são atingidos por dois projécteis deitando-os por terra. Fruto da sorte ou do azar, que isto na vida nunca se sabe bem do que se trata, o amável casal de pardais separam-se na queda e distam agora um do outro poucos metros. O pardal que voava sempre do lado esquerdo, coincidência ou não, há quem lhe chame destino ou fado, abate-se sobre uma poia de vaca. O pardal que mesmo voando sempre pela direita cai desamparado na relva, fracturando as suas frágeis articulações. E é então que se dá o momento, momento como esses que tantas vezes assistimos e em que tomamos a correcta percepção da vida como ela é.
Do alto do céu surge num voo rápido e preciso uma águia imperial que num ápice abre o seu grande bico e resgata o pássaro esquerdista. Já em pleno voo e com surpresa para alguns ( aqueles que há muito se aperceberam das aparentes aparências da vida decerto não estranharão ) abocanha o pobre pardal.
Por perto do local onde se dá tão hediondo crime passava um sujeito envergando um impecável camuflado comprado pela mulher do dito numa loja afamada especializada em artigos de caça. Era notório o desagrado com que o pretenso caçador vestia a farda. Nunca fora apologista da caça. Achava-a uma autêntica barbárie. Como se alguém pudesse ter prazer em matar vidas, ainda que a vida de animais. Contudo a sua mulher insistira que era óptimo e essencial para ele, e para ela e o seu status social, que participasse numa dessas caçadas tão em voga no Alentejo. Logo ele que nos idos anos 70 tivera o sonho do Grande e Livre Alentejo. Mas a vida mudara bastante, e agora que era um jovem empresario, ainda que andasse na casa dos 40 e tal, deveria agradar não só à sua dilecta esposa, como também aos tubarões de quem precisava urgentemente investimento na sua rede de franchising. Ia pois o nosso caro quase empresário, quase caçador, entretido com os seus pensamentos quando se depara com o pássaro direitista que caíra desamparado na erva. O nosso amigo fica deveras sensibilizado com tal cena. Pobre pássaro ali sozinho e tremendo de frio. Não podia ficar inerte perante tal situação. Olha em seu redor e salta-lhe à vista a poia de vaca ainda quente, onde há pouco jazia o pardalito agora ex-pardalito. O nosso quase empresário, agora mais do que nunca convencido de que nunca se iria tornar caçador pega delicadamente no pardal direitista e coloca-o suavemente na poia, acomodando-o o melhor que podia e sabia, como se de um leito se tratasse.

Moral da história

Nem sempre quem te tira da merda é teu amigo
Nem sempre quem te manda à merda é teu inimigo
Os fracos e oprimidos serão sempre acompanhados pela má sina com que nasceram.
Os poderosos e ricos terão sempre a sorte e a oportunidade de se safarem

Como diz o Sérgio Godinho "Isto anda tudo ligado"



Oiço despreocupadamente o noticiário do canal estatal. É apresentado no espaço onde decorre a feira do livro lisboeta. O pivot de serviço, José Alberto Carvalho conversa descontraidamente com um simpático sujeito, corrijo, escritor que hoje mesmo lançou uma obra sobre a pedofilia na casa pia.

Nota1- Descubro pelo desenrolar da charla que o grande escritor teve responsabilidades directivas na instituição.
Nota2-José Alberto Carvalho tem graves dificuldades em conduzir o telejornal sem teleponto
Nota3-A Afamada Obra apesar de lançada hoje já vai na 2ªedição
Nota4-J.A.C. surpreende-se com tal facto.
Nota5- O dito escritor surpreende-se também com tal notícia
Nota6- O escritor conhecia desde há muito os abusos sexuais sobre menores na instituição
Nota7- O escritor frisa que antes do 25 de Abril de 74 tal seria impossível
Nota8- O nosso ex director e agora escritor de best-sellers tem a justificação para a pedofilia. " O problema foi, é e será a existência de colégios internos masculinos. Quando existem muitos rapazes é natural que existam práticas homossexuais, e dai à pedofilia é apenas um passo".
Nota9-J.A.C. fica atónito com tais declarações e esclarece os contribuintes que homossexualidade é ligeiramente diferente de pedofilia.

Muito me apraz deparar-me com estes eloquentes espetáculos na televisão pública. Deve ser a tão aclamada sociedade cívil. Não pode sair o telejornal do estúdio e logo aparece um velho caquético, homofóbico e com tiques pidescos. O verdadeiro guardião do templo salazarista existe e ainda para mais escreve. E vende. Ainda se queixam do Paulo Coelho. Esse ao menos entretem-nos as mulheres com os seus romances simbólicos e lamenchas.
Do mal o menos, o sr escritor não se lembrou de defender a velha táctica utilizada nos seminários. Pobres seminaristas, anos e anos com as mãos geladas. Talvez tenha sido devido a tal que surgiu a bonita expressão "mãos frias, coração quente".
Há já muito tempo que o ar nesta latrina se tornou irrespirável.

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